Tuesday, November 29, 2011

LIDERANÇAS DO SÉCULO XXI


COM.COM
Lideranças comunitárias do século XXI
Um dos maiores desafios a todos as lideranças – em particular em tempos de crise mundial como os que vivemos – é a corrupção. Na maior parte das vezes a corrupção tem sido enfrentada de maneiras mais ou menos idênticas e mais ou menos sucedidas.
As ditaduras combateram a corrupção,regra geral, com um discurso moralizante alternado com a repressão violenta. Os regimes menos fechados e ou eleitos optaram por integrar no sistema as práticas corruptas - - legitimadas pelo bolso e pela alma do cidadão - e reprimir de forma administrativa aquelas outras partes impossiveis de integrar ou que recusaram a integração.
Muito menos se fez e se faz no sentido de operar o combate no outro lado da medalha ou seja a compensar os que não se corrompem e fazer deles e delas modelos a seguir. Regra geral destacam-se – pela negativa - os corruptos, os corrompidos e – pela positiva - os que combatem a corrupção, o que sendo justo com relação a estes últimos, continua a deixar na penumbra as heróinas e heróis anónimos de todos os tempos. Aqueles que sem se corromper nem subir aos píncaros da fama fazem a sua vida normal e sobrevivem à exclusão, ao aliciamento e ao isolamento que a sua postura às vezes suscita.
O objectivo essencial do nosso projecto de LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS DO SÉCULO XXI e que pertence ao projecto COM.COM por nós recentemente lançado, é o de suscitar plataformas discretas mas eficazes onde outras figuras anónimas possam falar desses heróis anónimos deste tempo e de todos os tempos de que há memória.
Seja por via da recolha de testemunhos secundados por terceiros e amparados por factos palpáveis, como também mediante o registo directo de ocorrências que sirvam para provar e destacar a personalidade e obra dessas lideranças anónimas que nos educam com o seu exemplo e pelo seu exemplo. Sem a intenção de obter compensação ou poder algum, apenas motivados por essa força interior – religiosa ou anímica – que lhes impulsiona a fazer bem e a cuidar do próximo.
Para o efeito vamos fazer uso dos mesmos procedimentos e ferramentas disponíveis nos outros projectos do COM.COM – depoimento pessoal, participação via celular ou computador, registo fotográfico, depoimentos e entrevistas. E estamos a construir uma grelha de perfis, critérios e indicadores que vai objectivar a informação recebida e ajudar ao cruzamento daquela fontes com as demais fontes disponíveis.
Deliberadamente não vamos prever compensação material alguma às heróinas e heróis anónimos desta liderança do século XXI. Mas faremos questão que as suas comunidades encoragem o seu envio a outras comunidades para partilhar as suas histórias de sucesso com suas contrapartes. E assim provar que um século XXI melhor é possível.
Ac.ac.2011.11

COM.COM


COM.COM
Comunidades comunicando
VISÃO
O COM.COM pretende ser uma plataforma de comunicação entre as comunidades do nosso país. E essa comunicação visa a partilha dos casos de sucesso de cada uma dessas comunidades. Desse modo se pretende emular a melhoria dos padrões de cidadania, serviço público, empresarial, voluntário, religioso, comunitário e profissional.
O propósito essencial é o de trazer para as luzes da ribalta os bons exemplos de serviço às comunidades sejam eles protagonizados por indivíduos ou colectividades. O mote desse propósito é simples e claro – VOCÊ PODE FAZER MAIS PELA SUA COMUNIDADE E SER MELHOR CIDADÃO.
O COM.COM está absolutamente convencido de que a partilha e emulação de casos de sucesso e de exemplos de pessoas e instituições dedicadas à sua comunidade vai ajudar a consolidar o espírito e a prática de boa cidadania e de bom serviço às comunidades.
OBJECTIVOS
O projecto COM.COM pretende igualmente contribuir para o desenvolvimento de uma cultura democrática e para a melhoria do serviço público às comunidades trazendo para as luzes da ribalta aqueles cidadãos, líderes e instituições mais destacados.
No âmbito do projecto COM.COM esse propósito pode e deve ser alcançado mediante uma concorrência, sã e aberta, entre servidores públicos. Emulados pela máxima de melhor servir as suas comunidades, os seus líderes, servidores e instituições mais destacados, encontrarão no COM.COM uma canal para dar visibilidade ao seu trabalho e de os compensar – moral e publicamente – pelo seu empenho e dedicação.
O COM.COM vai assim ajudar a criar uma plataforma legítima e transparente de competição entre os líderes, servidores e instituições de cada uma das comunidades do nosso país e, também entre as várias comunidades entre si.
As comunidades que se destacarem na criação de soluções que promovam o seu desenvolvimento e o aumento da produção e serviços, a diminuição do desemprego, da criminalidade, a melhoria dos serviços de educação, saúde, água, energia e transportes, vão ver os seus casos de sucesso destacados através do COM.COM. E dessa forma partilhados e adaptados às realidades de outras comunidades.
O maior objectivo do COM.COM é o de ajudar a transformar o serviço público e às comunidades numa plataforma democrática de excelência pelo próximo e pelo bem comum. Plataforma que pode igualmente ajudar a promover esses valores e os seus intérpretes mais empenhados.
FASEAMENTO
O Projecto COM.COM vai ser implementado de forma faseada e com a sequência que se sugere, nomeadamente:
  1. Validação do princípio de alternância democrática - como forma não violenta de governação e desenvolvimento das comunidades - mediante o inquérito e auscultação às comunidades dos municípios que já viveram essa experiência (Poder na oposição, oposição no poder)
  2. Criação de uma rede nacional de correspondentes comunitários e seu respectivo jornal electrónico com base nos enumeradores envolvidos no inquérito anterior (site COM.COM)
  3. Emular as boas práticas e os casos de sucesso no serviço às comunidades através da rede nacional de correspondentes comunitários
  4. Realizar regularmente inquéritos sobre a qualidade de vida e satisfação da comunidade e mediante a rede nacional de correspondentes comunitários divulgar os nomes das pessoas e instituições e as suas histórias de bom serviço às comunidades
  5. Sempre que possível promover encontros entre representantes das comunidades participantes no COM.COM para troca de experiências e permanente actualização do rumo e futuro da actividade do COM.COM.













PRIMEIRO PROJECTO DO COM.COM
ALTERNÂNCIA MUNICIPAL – PODER NA OPOSIÇÃO E OPOSIÇÃO NO PODER
Introdução
O projecto COM.COM pretende oferecer às comunidades do nosso país a possibilidade de partilharem entre si as experiências de governação municipal. Muito particularmente pretende-se saber que experiências e lições foram aprendidas por essas comunidades nos processos de alternância democrática que ali já tiveram lugar.
1.       Objecto
As cidades de Angoche, Beira, Ilha de Moçambique e Nacala são o objecto central do nosso projecto.
2.       Universo de Entrevistados
COM.COM pretende entrevistar pelo menos cem (100) pessoas em cada uma dessas cidades. O número dos entrevistados vai variar com a população respectiva desses municípios.
Desse universo de cerca de cem entrevistados os membros e dirigentes dos Partidos abrangidos não devem exceder a taxa de vinte por cento. Os restantes oitenta por cento dos entrevistados devem ser oriundos da comunidade, trabalhadores (formais e informais), empresários, líderes religiosos e comunitários, OCBs e líderes de organizações da mulher e da juventude, média local, pessoal afecto à provisão de serviços públicos básicos à comunidade.
Sempre que possível a proporção de cada um desses grupos de entrevistados deve corresponder à proporção desses sectores na demografia desses municípios.
3.       Abordagem
Porque os processos de alternância municipal estão dissociados daqueles que são os processos dominantes dos respectivos partidos pretende-se uma abordagem centrada nas comunidades e membros de base das organizações políticas.
Vai se dar particular ênfase à identificação de tendências e processos que estejam a maturar ao nível das bases e que possam ajudar a desenhar o futuro da alternância noutros municípios e noutros escalões da governação.
Atenção especial vai ser prestada às modificações sociais e económicas que possam estar a começar a ter lugar por força de processos – negativos ou positivos – ligados ao processo de alternância.
Metodologia
O método principal de trabalho vai ser a entrevista. A entrevista tem de trazer elementos válidos e representativos e por isso vai ser mais importante determinar a qualidade do que a quantidade dos entrevistados. Para além da grelha de entrevistados já mencionada no ponto 2., as entrevistas vão obedecer a uma rota de pesquisa que visa no essencial determinar
(i)                  Se existe uma estrutura local de “checks & balances”
(ii)                Como é que essa estrutura condiciona a evolução dos actores políticos e a qualidade do seu serviço às comunidades 
(iii)               Resultados tangentes dessa evolução ou de estagnação
(iv)               Lições aprendidas e válidas para o futuro da comunidade e para outras comunidades e escalões de governação e,
(v)                Em que medida esses processos ajudam à construção de uma cultura democrática e antecipação de cenários democráticos futuros

4.       Indicadores
O Projecto COM.COM vai ser avaliado e considerado em função dos seguintes indicadores:
  • ·         Dimensão e qualidade do universo de entrevistados abrangidos e das suas respectivas contribuições
  • ·         Representatividade dos entrevistados em função da demografia da área correspondente
  • ·         Validade das lições aprendidas que vai trazer à superfície
  • ·          Inovação e antecipação que vai trazer para a qualidade de vida das comunidades e dos municípios
  • ·         Contribuição para o desenvolvimento de uma cultura democrática e de inclusão em Moçambique
  • ·         Antecipador de cenários democráticos aprofundados e,
  • ·         Catalisador das transformações internas nas forças políticas que disputam a alternância

5.       Estrutura e Processo de trabalho
O projecto pretende trabalhar com uma mesma equipa de pesquisa, entrevista e redacção para todas as cidades abrangidas. Para além do coordenador-investigador a equipa deverá contar com o apoio de uma especialista em assuntos da mulher e de um outro especialista em assuntos da juventude. 
Esta equipa de três pessoas fará todo o trabalho desde a pesquisa, às entrevistas e até à redacção. Não se prevêem outras contratações de pessoal permanente.
6.       Custos antecipados
Custos do pessoal permanente, deslocações, alojamento, material informático e gráfico de impressão e custos locais associados ao processo de entrevistas.
7.       Prazos e formato das conclusões e relatório
Para realizar o processo nas quatro cidades prevê-se um espaço de quatro semanas para cada município e mais quatro semanas para preparação e outras tantas para conclusão, assim consideradas:

ANGOCHE
BEIRA
ILHA
NACALA
1º mês
preparação
preparação
preparação
preparação
2º Mês
Entrevistas e
elaboração do
Relatório parcial



3º Mês

Entrevistas e elaboração do
Relatório parcial


4º Mês


Entrevistas e elaboração do
Relatório parcial

5º Mês



Entrevistas e elaboração do
Relatório parcial
6º Mês
Conclusões finais e
Entrega do Relatório Final consolidado
Conclusões finais e
Entrega do Relatório Final consolidado
Conclusões finais e
Entrega do Relatório Final consolidado
Conclusões finais e
Entrega do Relatório Final consolidado





























Esboço síntese do projecto da autoria de ÁLVARO ALÇADA PADEZ CORTESÃO CASIMIRO
Outubro de 2011 -3ª versão datada de 26 de Outubro de 2011
Anexo
Estrutura PROVISÓRIA de checks and balances que deve ser adaptada a cada município
Factos,  indicadores e estrutura de CHECKS&BALANCES
SIM
NÃO
Rádios independentes


TVs independentes


Liga de Direitos Humanos


Jornais independentes


IPAJ


Ordem dos médicos


Ordem dos engenheiros


Associação dos Economistas


Ordem dos auditores


Observatório da Pobreza


Universidades alternativas à UEM


Partidos de oposição


Escrutínio publico do poder político


Prestação de contas dos deputados aos círculos eleitorais


Liberdade religiosa


Censura informativa


Funcionamento local dos tribunais


Papel da mulheres e juventude nos processos e decisões locais


Pessoas circulam livremente em todo país


Impacto da actividade do  conselho de concertação social


Impacto da actividade das centrais sindicais

































Anexo da autoria de ÁLVARO ALÇADA PADEZ CORTESÃO CASIMIRO
Outubro de 2011

Sunday, November 13, 2011

Estou de volta. Meu check up correu muito bem. No regresso contava com algo melhor do que aquilo que encontrei. Mas como diz o poeta a vida é assim mesmo - temos quase tudo pela metade ou a metade de quase tudo. Não se devem por isso admirar aqueles que consciente ou inadvertidamente me induzem a tomar decisões e caminhos que eles tanto tentam evitar. Esta semana arrancamos com o COM.COM. Sexta-feira vai sair a primeira publicação do assunto. Até lá tenham um bom começo de semana.

Saturday, November 5, 2011

Só voltarei ao blog e ao facebook no próximo dia 14 de Novembro de 2011. Com muitas novidades e um artigo semanal. Até lá um abraço
Como dizia há pouco eu já estou no facebook. Foi a prenda que me deram a esposa e os meus filhos quando fiz 53 anos, há dias. Meu endereço no facebook está com o meu nome completo ÁLVARO ALÇADA PADEZ CORTESÃO CASIMIRO. Apesar dos anos já vividos tenho pouca experiência em gerir quer o facebook como o blogg. Conto por isso com Vossa indulgência. Abraço

SECTOR FAMILIAR URBANO
vulgo sector informal, parceiro e embrião de PMEs

Sector Familiar Urbano
Moçambique tem uma taxa oficial de trabalho assalariado que ronda os 5% do total da população activa do país. A grande maioria dos trabalhadores do nosso país são camponeses e trabalhadores do sector familiar urbano.  O sector familiar urbano tem hoje uma dimensão muito maior do que aquela que tinha há 30 anos atrás, quando da proclamação da nossa independência.

O termo – sector familiar urbano – é tão novo quanto á sua existência. E é uma sugestão atrevida da nossa parte. E que pode porventura trazer maior precisão à tão apregoada designação de “sector informal”.

Ele é parte integrante deste processo recíproco de urbanização ruralizada, ou se quisermos de ruralização urbana e que tem tido lugar nas principais cidades do nosso país. No essencial, ele reflecte uma resposta - social económica – da família emigrada para as cidades e sem terra para cultivar, ou que como complemento da sua minguante actividade agrícola, cria mecanismos próprios de sobrevivência. Mecanismos esses baseados na experiência da família como entidade económica e social rural, e que são devidamente adequados às realidades urbanas que são o seu destino de migração.

Mais do que provável, é quase certo que os sucessivos fluxos migratórios, do campo para a cidade, tenham primeiro, criado este sector e, em segundo lugar, lhe dado uma dimensão que não pode mais passar despercebida aos nossos olhos e às estatítiscas com que se mede o crescimento e o desenvolvimento do país, particularmente das PMEs.

Porém, o carácter informal do sector e a sua desvinculação dos sistemas jurídicos e económicos existentes, não permite que a sua dimensão e contribuição para a economia nacional sejam devidamente mensuradas e avaliadas. Seja como sistema de fornecimento de emprego seja como intermediário, cliente ou fornecedor de PMEs. Particularmente daquelas que operam na agricultura e no comércio.

O sector familiar urbano é uma manta de retalhos tão diversa quanto o seu nome sugere. Mas que envolve um número cada vez maior de cidadãos e movimenta valores cada vez mais significativos de recursos financeiros e poupança. Não há-de ser estranho a isso a atenção que uma parte nova da nossa banca começa a dedicar à captação de poupanças das unidades, sobretudo comerciais, do sector familiar urbano. Ou o sucesso, às vezes a contrariar pessimismos dominantes, que algumas acções de micro-crédito começam a ter com unidades do sector familiar urbano.

Na maioria das vezes dirigido por mulheres e adolescentes da família, o sector familiar urbano vive essencialmente do pequeno retalho de rua, e em algumas cidades costeiras, da venda do pescado. Mas consolidam-se e regressam também outras actividades de outrora como sejam o artesanato, a latoaria e cerâmica, a produção de hortículas e de pequenas espécies animais, e, finalmente, actividades de cabeleireiro, corte e costura, confecção de comida e bolos.

O propósito deste nosso contributo não é pois falar apenas apenas das PMEs que existem, mas daquele que será, na nossa modesta percepção, o berço de um novo segmento de PMEs do futuro. E daquele que já é, nos dias de hoje, um cliente e fornecedor importante das PMEs de hoje.

Problemas particulares do Sector Familiar Urbano (SFU)
Os principais problemas do sector familiar urbano (SFU) prendem-se, em primeiro lugar, com a necessidade da sua vinculação aos sistemas jurídicos e económicos oficiais do país. O segundo dos seus problemas é, a qualidade da gestão da sua actividade e da dificuldade em utilizar as suas poupanças para essa “oficialização” do sector.

Com efeito o SFU, na sua maioria, não tem registo oficial, não paga impostos nem tem os trabalhadores devidamente inscritos no INSS. Raramente os operadores do SFU têm uma conta bancária. E quando a têm, registam-no a título individual e familiar, nunca como empresa. Que aliás não são. Ainda.

Uma parte importante do SFU porém, paga licenças camarárias, nomeadamente aqueles que operam a actividade das vulgarmente conhecidas “Barracas” dos nossos DUMBANENGUES, TXUNGA MOYOS ou MUALÊLÊS, como são conhecidos respectivamente no sul, centro e norte de Moçambique esses mercados populares da nossa ruralidade urbanizada.

Por todas as razões acima descritas o SFU raramente pode ter acesso ao crédito e a sua contribuição, para a economia nacional, permanece, regra geral invísivel. Apesar dessa contribuição existir e ser particularmente importante a três níveis.

Primeiro, como suplemento monetário dos recursos parcos dos grupos sociais mais vulneráveis. Em segundo lugar como meio de ocupação dos jovens que não tem acesso ao ensino  ou a mercado oficial do trabalho, ou a ambos. Em terceiro lugar e como já dissémos antes, como cliente e fornecedor das PMEs, sobretudo no comércio e na agricultura.

Oportunidades do SFU
Algumas das deficiências acima descritas, do SFU, acabam por funcionar como elementos de sustentabilidade do sector.

O facto de não ter de se registar, pagar impostos nem rendas – utiliza espaços públicos ou da família – e de dispôr de uma força laboral familiar, o SFU funciona com uma estrutura de custos mínima, que se resume à compra da mercadoria nos produtores e retalhistas e ao aluguer do transporte de terceiros. Muitas das vezes do vulgo TCHOVA XITA DUMA, ele próprio também, na maioria das vezes, parte do SFU.

Aliás a sua resistência à “oficialização” pode estar, em larga medida relacionada com as “benesses” que resultam deste seu estado de graça. Ou, se virmos as coisas sob outro ângulo, à ausência de incentivos – políticos, jurídicos e económicos – capazes de encorajar e aliviar os custos da sua transição para o sector formal.

Apesar de discreto – para não dizer informal também – o SFU é um contribuinte importante da actividade das PMEs, sobretudo daquelas que operam na área comercial, agrícola e piscatória. Com efeito, uma parte importante das unidades do SFU funciona como micro-retalhistas ambulantes de outros retalhistas oficialmente estabelecidos. Isso é particularmente verdadeiro – como aliás qualquer visita aos nossos dumbanengues poderá demonstrar – na venda de produtos como sejam bebidas, cigarros, e até mesmo roupa e calçado. Uma área nova do SFU é a venda dos famosos cartões pré-pagos dos telefones celulares.

Se individualmente e à vista desarmada a sua contribuição pode passar, correctamente, despercebida, o volume colectivo da sua actividade, transações e poupança já tem de ser visto sob um prisma mais aproximado. E, mais uma vez, saliantamos aquela que já é a contribuição do SFU para a actividade e crescimento das PMEs.

Essa contribuição é feita, em primeiro lugar, mediante as transacções efectuadas entre o SFU e as PMEs. Mas há nesta relação efeitos colaterais a ter em conta. O mais importante de todos tem a ver com o facto de que a existência do SFU contribui para elevar o poder de compra de grupos vulneráveis urbanos. Que, desse modo, passam a integrar – e alargar – a estrutura magra e vulnerável do mercado nacional.

A verificarem-se os incentivos políticos, jurídicos e económicos de que falámos antes, e adicionalmente se concretizarem acções básica de formação em gestão e microcrédito, é muito provável que cresça o volume da contribuição do SFU para as PMEs como para a economia nacional.

O que poderá ocoorrer por via da sustentabilidade e emprego que oferece aos grupos mais vulneráveis, pelo incremento das transações com as PMEs, pelo alargamento da base tributária do nosso país – central e  municipal -, e finalmente, pelo alargamento esperado do nosso mercado e elevação do poder de compra resultante das poupanças geradas no SFU.

Factos empíricos
A maior parte do que até agora foi a nossa apresentação resulta de observação e factos empíricos. Observação e factos que podem, porém, ser constatados durante qualquer visita que se faça aos nossos dumbanengues em algumas ruas das nossas cidades, vilas e bairros.

Convém porém acrescentar outros factos empíricos e de mais díficil constatação, pelo menos à vista desarmada.

O primeiro deles tem a ver com a relação que existe entre algumas franjas do SFU e a pequena criminalidade urbana. Não é a novidade, sobretudo para aqueles a quem já foi roubado um telemóvel, a carteira ou o relógio, que o mesmo pode ser “readquirido” em algumas das unidades móveis do nosso SFU. O mesmo se pode dizer sobre peças de viaturas e, mais excepcionalmente, até mesmo sobre carros roubados.

Não passa despercebido igualmente o papel, transitório, de algumas dessas mesmas franjas do SFU, na comercialização de drogas e estupefacientes.

Que fique claro que as referências acima mencionadas não devem ser interpretadas como sendo caracterizadoras da generalidade do SFU. Pretende-se isso sim sugerir, por via daquelas referências que, a oficialização do SFU pode ser um instrumento igualmente importante da luta contra a pequena criminalidade.

É nossa convicação que a vinculação oficial do sector às normas jurídicas e económicas que passarão a reger as suas actividades, os compromissos económicos e financeiros que daí resultarão e a sua integração mais ampla na actividade económica nacional, podem ajudar a reduzir drásticamente a disponibilidade e vulnerabilidade actuais de algumas franjas do SFU para a realização de actividades ilícitas.

Sinergias entre o SFU e as PMEs – o sentido histórico das oportunidades
O Artigo 42 da Constituição da República de Moçambique, diz, e citamos:
“1. Na satisfação das necessidades básicas da população ao sector familiar cabe um papel fundamental.
“2. O Estado incentiva e apoia a produção do sector familiar e encoraja os camponeses, bem como os trabalhadores individuais, a organizarem-se em formas mais avançadas de produção”. Fim de citação.

É nossa interpretação que a organização do sector familiar – rural e urbano – em formas mais avançadas de produção inclui as variadas formas de PMEs, onde se incluem, mas não sendo limiatadas àquelas, as empresas por quotas, as cooperativas de produção e consumo e as associações económicas, só para citar algumas. E é muito provável que a parte mais dinâmica, ou melhor colocada do SFU, evolua, mais tarde ou mais cedo, para uma estrutura senão igual, pelo menos muito parecida com a das actuais PMEs.

O artigo 44 da Constituição diz, e citamos novamente:
“O Estado reconhece a contribuição da produção de pequena escala para a economia nacional e apoia o seu desenvolvimento como forma de valorizar as capacidades e a criatividade do povo.” Fim de citação.

O incentivo, no plano político, às actividades de pequena escala remonta aos primórdios da independência, na altura num quadro político e económico socializante. É exemplo disso, alguma literatura produzida na ocasião e da qual destacamos, a título de exemplo, a seguinte:
  • o texto de apoio “Vamos desenvolver as nossas cooperativas” da autoria da Comissão coordenadora das cooperativas de consumo, na altura integrada no Minsitério de Indústria e Comércio, de 1978
  • os textos de divulgação agropecuária do Ministério de Agricultura, nomeadamente os seus números 2 e 3, respectivamente “Criação de coelhos” e “Criação de Patos”, ambos de 1985.
O primeiro que citámos, de 1978, é essencialmente um instrumento de orientação organizativa e política. E que tem relevância nesse plano e para o contexto da época. Os dois documentos de 1985 são essencialmente técnicos e ensinam procedimentos básicos de maneio para a criação daquelas pequenas espécies.

É fundamental dizer que, quer no que diz respeito às cooperativas como no que se refere à criação de pequenas espécies, o processo desencadeado ao nível político teve, naquela altura, consequências importantes para o país. E suscitou movimentos, de dimensão extraordinária, no seio do que hoje designamos por sociedade civil.

Com efeito, se consultarmos o Anuário Económico de Moçambique de 1990-1991, os números falam por si. Dados relativos ao distrito da Matola, referem que de um total de 48 criadores de coelhos em Junho de 1987 se passou, em Dezembro de 1989 para um total de 152 criadores (página 119, Anuário de Moçambique 1990-1991).

O mesmo Anuário refere, no que diz respeito à evolução da produção de frangos, ovos e ração que, de um total de 607 toneladas de produção de carne, em 1969, se passou para 1,996 toneladas em 1984. Dados porém inferiores aos obtidos em tempo de paz relativa, nomeadamente em 1980, cujo registo é de 5,908 toneladas (página 106, Anuário de Moçambique 1990-1991).

Este crescimento significativo da produção de animais de pequenas espécies, foi fundamental para colmatar a crise que se vivia na altura com a produção de gado bovino que caíra de um total de 88,749 animais abatidos para consumo, em 1974, para um total de 56,090 em 1980.  

Porque falámos de 1969, vale a pena consultar o Anuário da Província de Moçambique do mesmo ano no que se refere à actividade dos Serviços da Caixa de Crédito Agrícola.

Com efeito, diz o mesmo anuário que até 31 de Dezembro de 1965 tinham sido assinaladas escrituras por empréstimos no total de cerca de 56 milhões de escudos, dos quais, só para citar alguns, 151 mil escudos de empréstimos por penhora de produtos agrícolas, mais de 1,5 milhões de escudos para explorações avícolas e cerca de 8 milhões de escudos em máquinas, alfaias, material agrícola e para vedações e transportes (páginas 58 e 59 do Anuário da Província de Moçambique de 1969).

É curioso notar os valores que, na altura, se dedicavam ao crédito agrícola. Apesar de ser sabido que muito pouco desse crédito beneficiava directamente quer o sector familiar quer aqueles que seriam – ou mais tarde se iriam transformar - em proprietários Moçambicanos de pequenas e médias empresas agrícolas.

Ainda assim vale dizer que se compararmos o valor atribuído pela caixa agrícola com a receita total da província no mesmo ano – cerca de 6 biliões de escudos (página 46 do Anuário da província de Moçambique de 1969) – é forçoso reconhecer-se que aquele representava cerca de 1% do valor total da receita supracitada. Que não é mau. E sem o qual não poderiam ter sido obtidos os indíces de produção agrícola registados naqueles anos.

Se abstrairmos a natureza colonial e fascista do regime de então e nos concentrarmos no essencial económico dos factos supracitados, talvez seja de considerar o crescimento do crédito ao sector familiar e privado que operam na agricultura.

Primeiro, porque Moçambique é um país essencialmente agrícola. E vai continuar a sê-lo por muitos anos. E em segundo lugar porque todas as estatísticas do século passado e as deste nosso século XXI indicam claramente que os maiores contribuintes agrícolas do produto interno nacional são claramente o sector familiar e o sector privado. E dentro deste último, maioritáriamente, as suas PMEs.

Mesmo que a sua contribuição conjugada nunca seja como tal reconhecida, nem formalmente celebrada essa aliança natural – que porém é cada dia celebrada no trabalho diário e pelas estatísticas – começa a ficar cada vez mais demasiado tarde o dia em que se lhes dedique finalmente o estatuto – político e económico – que há muito conquistaram por mérito próprio.

Contribuição da política
Da consulta que fizémos à “Legislação económica de Moçambique” de Sérgio Vasquez, 2ª edição de 1998, verificámos que á excepção da lei 9/79 das cooperativas de 10 de Julho, não existe muito mais legislação específica para as PMEs ou para o sector familiar. Com efeito, e a título de exemplo, quer a Lei 3/93 de Junho, sobre os investimentos, como a 12/93 de 21 de Julho sobre o Código de Benefícios Fiscais, não se destinam específicamente às PMEs.

De todas as leis a que a supracitada obra faz referência a única que especificamente visou as PMEs – curiosamente surgidas ou oficializadas após a sua publicação – foi a lei 46/94 de 12 de Outubro alterada pelo decreto 55/95 de 12 de Outubro e que regula o funcionamento das Casas de Câmbio. De qualquer forma não podemos deixar de referir o carácter específico das casas de Cãmbio e a sua forma igualmente peculiar de participar no desenolvimento do país.

Entre outras medidas omissas, vale a pena referir o sistema tributário em vigor e a necessidade do seu aperfeiçoamento com vista a dotar as PMEs dum regime fiscal mais condizente com os seus padrões de gestão e contabilidade. Aperfeiçoamento esse que pode igualmente contemplar situações de excepção e incentivo para aquelas PMEs que decidam operar – ou surgir – em regiões e sectores menos infraestruturados e por isso com retornos mais lentos e factores de risco mais acentuados.

Uma das formas de concessão de “crédito” às PMEs é, possivelmente, a criação de regimes de isenção e incentivo que permitam às PMEs dedicar uma parte maior da sua poupança ao crescimento da sua actividade e a uma maior oferta de emprego.

Uma outra seria naturalmente a criação de um fundo estatal de contrapartidas financeiras para a obtenção de crédito pelas PMEs. A atribuir mediante critérios a definir pelo Ministério de Finanças com base nas prioridades contidas no PARPA e nos Planos Quinquenais do Governo. De tal forma que desse fundo beneficiassem, em primeiro lugar, aquelas PMEs que se destacassem na realização dos objectivos económicos e sociais do Governo.

O Estado e o seu Executivo devem continuar a reforma pública e legal iniciada e, paralelamente acrescentar, mecanismos e incentivos que confiram aos sectores familiar (rural e urbano) e privado (PMEs) o ambiente tão necessários ao crescimento da sua contribuição para o desenvolvimento económico de Moçambique.

Sabemos que estão presentes, quer em termos legislativos quer no domínio da vontade política, os pilares que vão nortear esse crescimento. O mesmo não podemos dizer, sempre, da concretização dessa legislação e vontade políticas.

Vontade política que depende também da generosidade e espírito visonário dos parceiros internacionais do país. Nem sempre familiarizados com a realidade profunda de Moçambique. Ou porventura condicionados – particularmente os parceiros privados – por imperativos económicos. Nomeadamente aqueles relacionados com a necessidade de retornos rápidos e seguros e por isso obrigados a investir ... onde já existe investimento e infraestrutura.

Que é quase o mesmo que falar de grandes investimentos e megaprojectos que pouco impacto têm na actividade e crescimento das PMEs nacionais.

Apesar de ser indiscutívelmente verdade que alguns desses megaprojectos – como é o caso da MOZAL – contribuíram para dinamizar, fortalecer e expandir as infraestruturas e o tecido de negócios circundante, também é verdade que o fizeram em zonas já relativamente desenvolvidas e infraestruturadas. Em detrimento de outras regiões mais carenciadas de infraestruturas mas igualmente ricas em potencial humano e económico.

Nesse sentido estrito compete particularmente ao Estado e ao seu Executivo continuar o processo de criação e aperfeiçoamento de mecanismos e incentivos capazes de atrair os grandes como os pequenos investimentos para outras regiões do país. Como é o caso do projecto de areias pesadas de Moma, só para citar um exemplo.

Se houver da parte do sector privado nacional uma resposta à altura, é mais do que provável que o projecto de Moma vai seguramente ajudar o crescimento das PMEs e a sua  participação mais robusta no desenvolvimento da economia daquela região e consequentemente do país.

Contribuição do sector privado
Não basta porém às nossas PMEs exercer periódicamente o seu ritual de lamentações, sobretudo se aquele não fôr acompanhado por um crescimento interno do sector e da sua capacidade de coordenar, entre pares, os seus esforços e de falar a uma só voz, em todo o país.

O muito que se diz, com justiça, do que falta fazer pelo Estado e pelos seus parceiros internacionais, é também, infelizmente verdade para as PMEs.

Dentre as fragilidades mais gritantes do sector sobressaiem os ainda incipientes sistemas de gestão e poupança e a sua fraca representatividade e coordenação de âmbito nacional. De que são elucidativos os variadíssimos casos de créditos mal parados e também aqueles de créditos mal aplicados ou desviados.

O empresariado das PMEs tem de se esforçar para criar de si próprio uma imagem de rigor, poupança e austeriade, necessáriamente opostos a alguns indícios de ostentação e esbanjamento que em nada abonam o prestígio, e, o que é mais grave, a sua sobrevivência e prosperidade.

Seria igualmente saudável, quer para as PMEs quer para o país, poder verificar, com mais regularidade, a sua participação empenhada no esforço de luta contra o SIDA e outras acções que, embora de carácter humanitário e social, têm cada vez mais um impacto maior na nossa economia e no futuro das PMEs e do nosso país.

Com os olhos algumas vezes postos nos seus próprios umbigos, falta por isso ao empresariado das PMEs uma visão mais ampla e integradora dos interesses dos seus parceiros no ramo, na região e no país.

E, tal como o Estado, se as PMEs e o sector privado em geral estão dotados de documentos estratégicos e de definições relativamente claras para a sua própria actividade, é forçoso reconhecer que é ainda grande a distância que vai entre as suas intenções e os seus actos.

Limitações, Mais valias e valores acrescentados
Moçambique, por razões históricas, políticas e geográficas que lhe são próprias, tem uma economia e tecido empresarial muito peculiares.

O nosso empresariado tem pouco mais de 30 anos. Que é o mesmo que dizer que são poucos os empresários filhos de empresários. E apesar de ser um país agrícola, não dispõe de uma indústria transformadora de produtos agrícolas digna desse nome. E se num dado momento histórico essa oportunidade surgiu – com o caju – mãos poderosas e no mínimo desatentas, cedo lhe ceifaram as pernas.

Evoluímos por isso daquilo que se convencionou chamar no tempo colonial de “industria de aperta parafusos” para uma indústria de serviços, fortemente dependente da agricultura e indústria sul-africanas. Hoje já nem os parafusos apertamos. Importamos o produto elaborado na totalidade e quando exportamos, cuidamos pouco de lhe acrescentar as mais valias necessárias.

As poucas iniciativas locais e modestas apostadas em acrescentar valor, localmente, às nossas riquezas nacionais, são mal acarinhadas ou provávelmente sofrem as consequências decorrentes de uma rede de transportes que hoje, tal como no passado, continua a priveligiar o “hinterland” em detrimento das ligações no sentido norte-sul.

Isso sem mencionar aqueles outros constrangimentos decorrentes dos impactos da economia mundial no já de si frágil tecido da nossa economia. Tal é o caso do impacto dos preços mundiais de energia num país que apesar de tudo tem uma das maiores hidroeléctricas de África,  explora gaz e tem reservas de carvão em Moatize.

Nunca é demais recordar que em meio século o país pôde apenas usufruir de pouco menos de vinte anos de paz. Sendo que a última das guerras registada incidiu, com uma violência invulgar, sobre as infrasestruturas básicas e já de si escassas de que o país dispunha.

A guerra colonial, teve sobre o país entre vários, um efeito particularmente perverso. O aumento da presença militar portuguesa, particularmente em Nampula que era capital militar da colónia,  provocou um “boom” de construção civil nunca visto. A província e a sua capital cresceram a ritmos nunca experimentados, quer no passado, como depois da independência. Cresceram também, em consequência, todos os demais sectores da economia da província.

Porque a guerra de libertação não incidia sobre pessoas e infraestruturas económicas, na forma como outras guerras o fizeram, esse processo de crescimento manteve-se ao ritmo da guerra.

O fim dessa mesma guerra, e a independência, paradoxalmente, interromperam e estrangularam esse processo.

Primeiro porque, dum dia para o outro, partiram de regresso ao seu país os mesmos militares que haviam provocado o crescimento da  economia local e dado emprego a tanta gente. Em segundo lugar porque o exército libertador, menor em número, era também bem mais modesto no seu poder de compra e na capacidade de empregar outrém. É fácil de perceber o resto do efeito, qual bola de neve cilindrando tudo e todos.

Por sua vez, as crises e os momentos melhores dos países vizinhos, afectam ou beneficiam, de modo imediato, as províncias e regiões moçambicanas ligadas, económicamente, a esses países. Tal é o caso do Zimbabwe e do Malawy e os seus respectivos impactos no centro e norte do país.

Estes não são males de agora. Infelizmente. Assim o foi,  também, por exemplo, nos anos sessenta, com a industria sizaleira que sucumbiu quase à nascença com a comercialização do nylon.

País com um clima predominantemente semi-árido, regra geral com apenas três meses de pluviosidade anual, ciclicamente sujeito a regimes de seca e inundações, não disposmos, ainda, de um sistema de captação e contenção de águas suficiente para o necessário crescimento da nossa agricultura.

Resumidamente,  pode-se dizer que somos um país excessivamente dependente do clima, da geografia e da vontade de países e factores quase sempre alheios à nossa vontade. E que nem sempre levamos esses aspectos em consideração. E que têm sido poucas as oportunidades para contrariar essa realidade. E que por essas e outras razões – que não cabe aqui referir - pouco temos feito para reduzir os efeitos combinados desses factores sobre a nossa realidade.

Urge por isso tornar a acarinhar aquelas iniciativas emanadas daquilo que sabemos fazer melhor, onde seja patente um maior entrozamento com a nossa agricultura, pesca, artesanato, cultura e turismo,  e seja quase que obrigatório acrescentar valor, localmente, quer ao que exportamos como àquilo que importamos.

Nesse esforço, quer as PMEs como os nossos sectores familiares – rural e urbano – podem e devem tomar a dianteira. Seja pelos seus indices de juventude e flexibilidade, como pela sua proximidade e impacto directo sobre o país e as necessidades básicas dos seus cidadãos.

Em geito de conclusão
Falámos primeiro, aparentemente de forma despropositada, desse sector familiar urbano (SFU), saído da nossa visão e explanação, porventura ousadas. Fizémos uma incursão, breve, sobre o ordenamento político e jurídico nacionais que condiciona o ambiente de negócios em que têm de operar as PMEs.

Dessa incursão resulta claro que se já se fez muito, é ainda maior o caminho que falta fazer.

Uma rápida incursão histórica permitiu-nos ajuizar do impacto que tiveram na economia, medidas emanadas da vontade política, como foram a caixa de crédito agrícola, em regime colonial e, a promoção da criação de pequenas espécies, depois da independência nacional.

Estamos em crer que ficou demonstrado que, havendo vontade política e sendo ela concretizada, podem-se dar passos fundamentais para o crescimento da economia. Sobretudo se essa vontade política estiver fundada num conhecimento rigoroso do país e num diálogo permanente com as PMEs.

Mas dissémos igualmente que a esse diálogo falta também uma maior organização interna das próprias PMEs, uma cultura mais aperfeiçoada de comunicação entre si, condição fundamental para poder dialogar a uma só voz com o Estado e os seus demais parceiros de desenvolvimento.

Em geito de fecho recordámos a especificidade histórica e geopolítica com que se fez e continua a fazer a economia de Moçambique. E fizémos um alerta e convite para que se tomem decisões mais criativas, ousadas e necessáriamente assentes na leitura rigorosa dessas especificidades e geopolítica.
Moçambique não é, nem nunca foi, em condições normais, destino priviligiado de megaprojectos. Isso aconteceu, acontece e pode acontecer novamente, quando (i) se criem regimes especiais de atracção de investimento, (ii) os referidos megaprojectos não se consigam hospedar em território do vizinho gigante, e nós sejamos a segunda escolha (iii) ou quando haja uma combinação determinada de vontade política, posicionamento estratégico com investimento estatal e privado – nacional e estrangeiro – como foi o caso de Cahora-Bassa.

O nosso país é, pelas razões acima citadas, residência e destino priviligiado de PMEs e do seu principal aliado, o sector familiar (rural e urbano). Nesse sentido . e nesse sentido apenas, já é por demais tempo de ter, em termos do ordenamento jurídico e económico internos, regimes completamente elaborados para as PMEs com o mesmo peso e eficácia que aqueles criados, há não muito tempo, para os grandes projectos.

E se faltarem razões para tanto, que o façamos com base na experiência histórica, de guerra e de paz, que já temos.

Com efeito, neste percurso de meio século de que vos oferecemos neste artigo a nossa modesta percepção, fica claro que aqueles que permaneceram e suportaram sempre todas as vicissitudes e melhor se adaptaram a todos os condicionalismos foram exactamente as PMEs e o sector familiar.

Oxalá seja razão bastante.

Setembro de 2006