LIBERDADE E OPÇÕES
Entre os grandes desafios que a humanidade enfrenta nos dias de hoje
sobressaiem a luta contra a pobreza e contra o HIV SIDA. E em ambos coexistimos
obrigatóriamente com o dilema que opõe a carencia de recursos ah nossa vontade
de tudo vencer e resolver. Mas não só.
Porque os recursos são escassos, há também muitas vezes associada a esses
desafios uma certa força hegemonizadora que nos tenta convencer de que há
apenas um caminho válido a seguir. Como se, a urgencia de tais desafios, nos
forçasse a prescindir do bem maior de todos nós, depois da vida, que é o da
liberdade. Liberdade, bem entendido, como o direito ah escolha e a ter mais do
que uma opção.
O grande desafio que é a luta contra o HIV SIDA nâo escapa a essa regra.
Aos cidadãos, sobretudo de África, é-nos dito, de forma quase que ditatorial
que, a abstinencia, o sexo seguro, a fidelidade ao parceiro e a mudança de
comportamento são as (únicas) vias possíveis de salvação. O que é inteiramente
verdade. Mas náo é a verdade inteira.
Quando olhamos para os países com as mais baixas taxas de seropositividade
e infecção, verificamos que, ah excepção de casos como o Brasil, todos os
outros são países altamente desenvolvidos, onde pelo que se nos é dado observar
não se pode falar da mudança de comportamento, nem da abstinencia ou da
fidelidade como causas principais de sucesso. Em alguns desses países foram
recentemente detectados comportamentos atípicos, como a pedofilia, e permanece
omnipresente uma poderosa industria de tráfico de droga e a pornografia.
São países onde já ninguèm morre com SIDA, desde que cumpra ah risca a
medicação e tenha os recursos financeiros necessários para a pagar.
Nos países como o nosso, bem pelo contrário, nem conseguimos manter vivos
aqueles que tiveram a coragem de mostrar a cara. E nem sequer sabemos que
resposta dar, quando nos perguntam se será melhor tratar e salvar um professor
que vive com o HIVA SIDA ou esperar 17 anos para que se forme um outro
professor. Como se, essa futura geração de professores pudesse estar imune,
ámanhã, do mesmo risco de infecção que vai dizimar milhares dos seus colegas de
hoje.
Pontificamos sobre estratégias e programas e chamamos ao palco dessas
deliberações todos os possíveis actores urbanos da sociedade civil. Vamos ao
cuidado, importante aliás, de não ferir susceptibilidades de parceiros
importantes como o são as confissões religiosas convencionais.
Esquecemo-nos porém de fazer o mesmo com esses outros actores igualmente
importantes da nossa sociedade civil rural (animista). E damos-nos inclusive ao
luxo de os ofendermos todos os dias com conclusões e deliberações, mais do
género antropológico, através das quais os colocamos na condição de sujeitos
mal comportados, e por isso mesmo percursores fundamentais da tragédia.
Ou seja, com a melhor das intenções, alienamos e ofendemos aqueles que são
afinal a parte maioritária do problema e tem de ser também o segmento
maioritário da solução.
As ONGs de colegas portadores do HIV SIDA nem se quer conseguem ajudar a
manter vivos os seus líderes. Alguns deles figuras carismáticas e
empreendedoras que tanta falta nos fazem no combate á doença. E nós continuamos
a matutar, na nossa torre de marfim, se haverá viabilidade económica e
sustentabilidade para o tratamento ...
Temos para nós que é preciso uma nova abordagem. Por exemplo, em vez de
perpetuar o discurso tortuoso e antropológico das causas do insucesso, porque
não falarmos mais das causas que foram alavanca do sucesso noutros países? E dizermos abertamente quais são todas as
opções disponíveis na luta contra a doença, os seus custos inclusive. E
acrescentarmos, sem rodeios, que há opções que se nos afiguram longe do nosso
orçamento nacional, familiar e individual.
E o que podemos ou devemos fazer para, gradualmente, tornar mais
acessíveis essas soluções por enquanto distantes e dispendiosas.
Os nossos colegas da OXFAM, de Regio Emmilia, da África do Sul, do Brasil e
da Índia já deram vários passos certos nessa direcção. E a indústria
farmaceutica, relutante, começa a ouvir e evoluir. Começámos a controlar,
relativamente, a transmissão vertical da doença, de máe para filho.
Cremos que é imperioso deixar de falar do HIV SIDA como o problema dos
outros, de alguém distante. Não basta apenas continuar a dizer aos outros como
prevenir a doença e se tratarem dela, é preciso olhar para o nosso próprio
umbigo e cumprir o desafio dentro das nossas casas e escolas, unidades de trabalho e de produção. Algumas
escolas e empresários de Moçambique já deram o primeiro passo. Mas náo basta.
O desafio que se nos coloca a todos é: prevenir, salvar e tratar-mo-nos a
nós próprios e aos que estão ao nosso lado. Alocarmos os recursos necessários
para realizar o prioritário e preparar o caminho para as actividades
secundarizadas apenas pela nossa actual escassez de recursos. E, havendo
coragem e lucidez, promover o diálogo, por enquanto adiado, com o segmento
maioritário da solução.
Ou vamos continuar a assistir aquilo que há dias dizia um perito africano
das Nações Unidas – metade do Governo faz o levantamento das necessidades no
combate ao HIV SIDA e a outra metade diz que não há recursos disponíveis?
AC

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